A Manjedoura

Posted: 2010/09/21 in Gentes, Histórias e Curiosidades

A Manjedoura era o único restaurante e café que existia em Vale de Maceira. Nos anos 80 com o Sr. Mendes e com grande Zé Gordo (já falecido) à frente, a Manjedoura era um local de culto, viveu grandes momentos e é decisiva no contexto histórico da nossa terra. Lá se iniciavam verdadeiros debates ideológicos sobre política, religião, futebol e sexo.

Na estrada, à noite, naquela época, os carros eram poucos. Em frente à Manjedoura passava um carro de 5 em 5 minutos, isso permitia a reutilização do alcatrão, por exemplo, para animadas partidas de futebol de estrada, congressos nocturnos à luz de vela, com vista para as serradas ou mesmo circuitos pedestres percorrendo em oito as ruas da localidade.

A Manjedoura servia também de local de encontro, de ponto de partida para vários e carismáticos destinos. Desde logo, no verão, para as festas das aldeias da zona (Alfeizerão, Valado, Mosqueiros, Chão da Parada, Guizado…).

Aos domingos, ao inicio da tarde, era lá que nos encontrávamos para partir rumo ao campo da mata, esperava-nos uma grande tarde de futebol a ver o Caldas. E o que dizer das noites de domingo a ver o “domingo desportivo” com um Sumol e uma bela bifana de pãozinho mal cozido (como alguém pedia), temperada aqui e acolá com algum “mau feitio” da D. Clara, fruto da hora tardia e do cansaço inerentes a um dia intenso de trabalho na cozinha. É bom lembrar que na altura a Manjedoura “dava cartas” na região na arte de bem comer. Com o Zé Gordo ao leme, lá se faziam grandes almoçaradas e apetitosas jantaradas.

E as batalhas do balde de água? – Verdadeiros hinos à coragem, bravura e espírito guerreiro do povo de Vale de Maceira, qual Braveheart! O Mel Gibson ao pé do Vítor Sandokan seria o mesmo que comparar a valentia e o manejo da espada com a nobreza, inteligência e argúcia de saber utilizar um balde com água… – começavam também elas na Manjedoura. Prolongavam-se noite dentro, pelos campos, estradas e encruzilhadas da Aldeia, sem medo do escuro em ruas com fraca ou nenhuma iluminação, as duas ou mais equipas empunhavam baldes cheios de água que ao virar da esquina arremessavam contra os adversários, obrigando-os a trocarem-se. Alguns deles já não voltavam… feridos no seu orgulho, apenas no dia seguinte reapareciam em público, contando a sua versão dos acontecimentos… – Eram mais de 20!

E os Europeus e Mundiais de futebol? – Embora naquela altura, a nossa selecção não se fizesse representar, isso não nos impedia de assistir em conjunto a grandes jogos da bola. Foi lá… no café da Manjedoura que assistimos aos primeiros comentários do até então desconhecido Gabriel Alves. Lembro-me de alguns inesquecíveis, por exemplo, no Europeu de 96, houve um lance em que um jogador Romeno remata de longe contra o poste e a bola entra na baliza, só que depois volta para trás. O golo não foi considerado pelo árbitro, apesar da bola ter entrado mais ou menos 20 cm para lá da linha de golo. O Comentário do Mestre Gabriel: – “Siiim… A bola entrou, à vontade, 1 ou 2 metros para lá da linha de golo.”; A descrição do estado do tempo num jogo do Mundial de 94: “Uma humidade relativa, muito superior a 100%”; e lembram-se daquela célebre frase no europeu de Inglaterra no jogo Republica Checa – Alemanha: “No campeonato germânico jogam muitos jogadores alemães”. E aquela da cerimónia de abertura do mundial de Espanha: “E agora entram as danças sevilhanas da Catalunha”. Este homem faz falta! Sinceramente… tenho saudades! Este senhor tinha capacidades extra-sensoriais, lembro-me de um jogo Porto – Belenenses, após um canto marcado pelo Porto, referindo-se a Costinha: “Ele é excelente nestes lances porque a bola está morta e passa a estar viva”. Isto não é fácil! Admitam! Ao Gabriel (devo trata-lo assim) se ficou a dever muita da nossa actual cultura táctica (qual Mourinho…) expressa nestes hilariantes monólogos que mais tarde viriam a ser decisivos para a realização de relatos do Sport União e Alfeizerense através da então “Rádio Oceano” onde muitos de nós fizemos rádio.

É verdade… vivia-se a época das rádios locais. Havia muitas! Foi a partir da “Radio Oceano” que fizemos alguns relatos com a ajuda (imaginem…) de um Rádio CB. Ao fim de 20 minutos de relato tínhamos queimado a “portadora”… pudera! – estava deste o inicio colada com fita adesiva para não se ouvir o apito. Grandes técnicos de som.

A Manjedoura foi também ponto de partida para noites de carnaval fantásticas: O “Treco-Lareco”, o belo “Coco na fechadura”. A uma noite de carnaval que se prezasse não podiam faltar estas duas actividades. Uma pedra, de preferência grande e pesada, cartão, para a envolver e uma corda. “O Treco-Lareco” era talvez a “brincadeira” mais emocionante. Consistia em atar à taramela da porta da vitima, uma pedra, envolvida em cartão. Em seguida, numa extremidade da pedra, funcionando como pêndulo, prendia-se a corda. Esta era esticada até ao outro lado da rua, onde nós nos escondíamos para ao mesmo tempo vermos o que estava a acontecer e cuidar para não sermos vistos. Com uma cadência compassada começávamos a puxar a corda. No silêncio da noite o barulho da pedra a bater na porta fazia-se ouvir muito longe enquanto nós imaginávamos o que poderia estar a acontecer lá dentro.

A coberto da máxima: “no carnaval nada parece mal”, sabíamos que o que estávamos a fazer não podia ser feito noutra altura do ano. Apenas e só no Carnaval!

Bom! Depois… também havia o Valentim, mas esse fica para outra altura.

João Carlos Mota

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