Ajudar quem perdeu um filho antes do nascimento (a perda gestacional)

Posted: 2011/08/07 in Artigos de opinião

A nossa sociedade não valoriza a dor de quem perde um filho antes do seu nascimento. Não se percebe porquê. Talvez porque necessitem de ter algo mais palpável, será isso?

É quase um paradoxo uma mulher gerar, mas não dar à luz. Algumas mulheres falam em colapso de uma ilusão, desmoronar de um ciclo ou a morte da liberdade da alma. É o outro lado da gravidez, o fantasma da maternidade – O Aborto. Maria Manuela Pontes, autora do livro: “Pacto de Silêncio – Maternidades fugazes” questiona se estaremos preparados para a morte antes do nascimento? Ou se a sociedade civil está consciente da fugacidade que a maternidade pode adquirir?  (Pontes, 2008).

As mulheres crescem a acreditar que geram filhos. Ninguém quer falar em morte antes do nascimento. Num processo de criação de um conjunto de expectativas, de projectos futuros que muitas vezes acaba numa enorme solidão, com a perda do bebé. Tudo isto impede que as mulheres estabeleçam um equilíbrio emocional para abordar o assunto. É urgente existir apoio psicológico especializado para estas situações em contexto hospitalar. As maternidades dos hospitais ainda estão muito centradas no nascimento de bebés vivos e saudáveis e quando algo corre mal, nota-se alguma impreparação para lidar com o assunto. E se a mulher pretende um estudo sobre o que se passou para ter perdido o bebé, a resposta em pleno séc. XXI é: O protocolo hospitalar diz que uma mulher tem de perder três filhos para se estudar geneticamente o que se passou com ela.

Por outro lado, os amigos e os familiares também não percebem como reagir a estas situações bem diferentes de outro tipo de óbito. Por vezes dizem para que se esqueça, que ainda são novas, que pode haver outros bebés…

Enquanto isso, a mulher pensa que voltando a engravidar estará a colmatar o vazio, a solidão, provocada pela perda anterior entrando numa “corrida” desenfreada rumo a uma nova gravidez, envolta em novos medos e angustias geradas pelo que aconteceu antes, pensando apenas nas questões físicas (normalmente resolvidas após 3 meses) mas esquecendo as questões psicológicas, porque não lhe são comunicadas.

Tudo isto afecta em última análise a família, e se não existir comunicação e partilha da dor entre o casal, a mulher pode constantemente ser assaltada pelo pensamento de culpa e de abandono do marido por achar que este terá direito a ter um filho, algo que ela não consegue dar-lhe. Muitos destes casos acabam numa forte depressão, fobias ou patologias de ansiedade.

Manuela Pontes falou na TSF sobre a sua experiência, vale à pena ouvir no link em baixo!

http://www.tsf.pt/Programas/programa.aspx?content_id=1016877&audio_id=1824136

João Carlos  Mota

 

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Comentários
  1. Pedro Martins diz:

    Excelente abordagem de uma situação que afeta cada vez mais familias.
    Cumprimentos. Pedro Martins

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